POV #23
Como a podolatria deixou de ser um “tabu de bastidor” para se tornar um tema discutido abertamente na cultura brasileira? Grande parte desse caminho foi pavimentado por um homem: Glauco Mattoso.
Poeta, sonetista e transgressor, Glauco deu dignidade ao desejo. Mas ele não estava sozinho nessa jornada de dar nome aos pés. No final dos anos 90, já com o árduo caminho aberto por Glauco, registros como a obra Tesão por pés – a realidade de um gosto excêntrico (FEETMAG – 1999) e mais recentemente Podopopeia – pés, saltos, aromas e paladares da podolatria (FEETMAG, 2025), de Giuliano Moretti, ajudaram a consolidar o termo “podolatria” no nosso vocabulário, transformando o gosto em uma identidade real e documentada.
Confira algumas obras essenciais que permitem entender por que Glauco Mattoso é o pilar da podolatria literária no Brasil.
O pontapé inicial com o “Manual do pedólatra amador”
Lá em 1986, quando o Brasil ainda engatinhava na democracia, Glauco lançou o Manual do pedólatra amador – Aventuras & leituras de um tarado por pés (EXPRESSÃO, 1986). Ali, o pé deixou de ser apenas uma parte do corpo e virou o protagonista de uma narrativa de adoração. Foi o primeiro grande grito de liberdade para quem sentia que o seu desejo merecia um lugar de respeito na estante de livros.
A “Planta da Donzela” e a brincadeira com os clássicos
Se ainda não leu, no mínimo você já ouviu falar do livro A Pata da Gazela, de José de Alencar. Glauco pegou esse clássico do século XIX e fez o que chamamos de pastiche: uma homenagem provocativa e erudita. Ele lançou A Planta da Donzela, trocando o romantismo comportado de Alencar por uma fixação explícita na podolatria. É a prova de que o fetiche sempre esteve na nossa literatura; Glauco apenas tirou o sapato da história para revelar o que havia por baixo.
“Glaucomix”: podolatria também é diversão
E quem disse que o tema precisa ser sempre denso? Em As aventuras de Glaucomix – o pedólatra, o autor usou o formato de quadrinhos, em parceria com Marcatti, para satirizar a virilidade e o fetiche. Ele mostrou que o humor é uma das melhores ferramentas para debochar do preconceito e humanizar nossas obsessões, levando o tema para além das bolhas acadêmicas.
Ver com as mãos: a poética da cegueira
Nos anos 90, Glauco perdeu totalmente a visão. Mas, em vez de parar, ele apurou os outros sentidos. Para ele, o pé virou um “relevo vivo”. Sua escrita passou a focar na textura da pele, no calor da sola e no aroma dos pés, provando que a podolatria é, antes de tudo, uma experiência sensorial profunda que vai muito além do que os olhos podem ver.
Blogocular: Onde a produção não para
Aos 74 anos, Glauco continua mais ativo do que nunca. No seu blog (blogocular.wordpress.com), ele publica sonetos e crônicas periodicamente. É uma parada obrigatória para quem quer entender como a literatura e o fetiche caminham juntos na era digital, além de muita cultura, mantendo viva a chama de uma produção que nunca se curva ao senso comum.
Um legado de liberdade e identidade
Hoje, a podolatria é reconhecida como uma realidade cultural legítima. Entre a poesia visceral de Glauco e os esforços de documentação e difusão terminológica que surgiram nos anos 90, o tema ganhou o direito de existir sem desculpas. Não é mais sobre “estranheza”, é sobre estética, história e o direito de celebrar o que nos move.



Deixe seus comentários